quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Imaginação fértil

Vou contar pra vocês uma história sobre escola. Mas antes de contá-la, gostaria de dizer que odeio o ambiente escolar. Gosto de estudar, sempre gostei, mas se tinha algo que me deixava realmente assustada era ir pra escola. A convivência com as outras pessoas sempre foi pra mim um problema desde cedo, principalmente porque as crianças são cruéis quando querem – e porque reproduzem um certo padrão da nossa sociedade, e vamos combinar que nossa sociedade não é lá essas coisas. Mas a escola definitivamente era um lugar hostil. Minha mãe lendo isso vai dizer que é mentira, que eu “amava a escola”. Isso não é verdade. O fato é que eu jamais gostei desse ambiente, ia porque desde cedo já entendia que era uma obrigação e que se eu não fosse pra escola, algo de muito ruim poderia acontecer comigo ficar em casa lavando a louça.

Pareço feliz. Mas só pareço mesmo.

Porém, o que me fez escrever hoje não foi exatamente uma lembrança de toda minha vida escolar, embora eu tenha feito essa regressão posteriormente. Na verdade, decidi escrever porque aconteceu algo engraçado quando eu levava meu irmão mais novo pra escola – ele também não gosta de lá, acho que é genético. Nós dois chegamos juntos, eu segurando a mãozinha dele, dei a mochila pra ele e me despedi. Ao cruzar o portão, deparei-me com a seguinte cena: um pai (suponho) trazendo a filha para a escola em seu táxi. Só ela desceu do carro, e ele esperou ela passar pelo portão para ir embora. Ao mesmo tempo, duas menininhas que não deviam ter mais de sete anos falaram “Olha, a fulana é tão chique que vem até de táxi”. Eu soltei uma gargalhada alta, e os pais que ali estavam me olharam muito feio – eu já sou esquisita andando normalmente na rua, imaginem gargalhando. Mas então, eu ri porque provavelmente elas não sabiam que as chances daquela menina estar indo de táxi porque tem dinheiro são bem pequenas.

Tô aqui de boas esperando minha filha/patroa sair da aula.
E sei lá porque minha mente insana lembrou-se disso, mas associei muito esse lance do táxi a um episódio que eu preciso narrar. Eu tinha por volta dos seis ou sete anos. A minha escola tinha anunciado que participaria do desfile de Sete de Setembro. Até então tudo bem, exceto por: eu e minhas amiguinhas interpretamos a palavra “desfile” de outra forma. Ficamos TÃO FELIZES porque finalmente nossa escola participaria de algo legal (eu disse: “GENTE, UM DESFILEEEEE! IMAGINA SE ENCONTRAMOS A GISELE BÜNDCHEN!!!”), que logo levamos o comunicado emitido pela escola para os pais assinarem. Eu não me lembro do meu pai nesse episódio específico, mas minha mãe levantou uma sobrancelha e perguntou: “Fernanda, você quer ir mesmo pra isso? É cansativo, você vai ter que andar muito.”, e eu toda boba respondi: “mamãe, é a oportunidade da minha vida!!!”. A mente de qualquer um com um pouco de sanidade e maturidade embaralharia depois de ouvir essa declaração.

Eu tinha isso em mente.

Então, o Sete de Setembro chegou. Que dia lindo, pensei. Minha mãe ia comigo porque era obrigatória a presença de um responsável (mãe, desculpe ter feito você passar por isso), e ela lançava aquele olhar com a sobrancelha levantada e os olhos cerrados que só ela sabe lançar. O ponto de partida era a própria escola. Achei estranho o fato de ser obrigatório o uniforme, mas não refleti profundamente sobre isso. Tinha treinado vários dias com minhas amigas, durante o recreio, o nosso andar já pensando nas passarelas. Naquele dia eu estava apreensiva e pensava: “Será que vão gostar de mim? Será que terão muitos fotógrafos?”. Começamos a caminhar com uma música estranha no fundo, com uma tal de “Banda do Desfile” (“GENTE, CADÊ AS MÚSICAS DE PASSARELA?”), e o dia estava ficando cada vez mais claro, com aquele sol que só o Rio de Janeiro é capaz de ter em dias quentes, e todas as crianças já estavam melecadas de suor e extremamente fedorentas. Minha mãe era super prevenida e levou garrafinha com água gelada e uma toalhinha pra secar meu rosto, então eu não estava tão desamparada. Mas eu já tinha entendido que aquele desfile não era de moda coisa nenhuma, e sim uma celebração de uma tal de “independência do Brasil” (“EU NÃO SABIA NEM QUE TINHA SIDO DEPENDENTE ANTES!!”). O máximo da moda que eu presenciei aquele dia foi dividir o espaço com os alunos do colégio militar, que tinham uniformes muito mais elaborados que os das simples alunas das escolas estaduais, como eu. O resultado é que eu cheguei à minha casa morta de fome, suada e cansada, com meus pés gritando PELO AMOR DO AMOR, PARE DE ANDAR PELOS PRÓXIMOS MIL ANOS, GAROTA. Não sei qual era o estado físico da minha mãe, mas se hoje ela é uma pessoa que não embarca nos meus sonhos, a explicação pode partir disso.

Dessa lembrança, aprendi duas coisas: A primeira é que não devemos criar expectativas demais. Eu era uma jovem criança com aquele sonho chato e previsível de ser uma modelo, e descobri da pior forma que a palavra "desfile" é usada pra várias situações diferentes. A segunda é, certamente, que o feriado da Independência é muito inútil pra todas essas crianças e militares que ficam marchando nas avenidas. Tadinhos deles. É bem melhor aproveitar dias assim dormindo, não é mesmo?

domingo, 17 de agosto de 2014

A volta dos que não foram

Desde que eu tinha meus 12 anos de idade, nada na cabeça e muito tempo livre, cultivo uma coisa chamada blog. Era tudo muito tenso, usávamos internet discada - eu tinha o discador do IG! -, fazíamos gifs animadas que demoravam mil anos pra carregar, não fazíamos ideia do que estávamos fazendo. O tempo passou muito depressa, eu cresci (nem tanto), comecei a estudar muito pra virar esta porcaria de técnica em informática que ainda não aprendeu a trocar uma placa-mãe e essa vibe dos blogs ficou um pouco para trás. Primeiro porque, convenhamos, a blogosfera não é mais como era antigamente. Não existe mais aquele feeling de você postar coisas sobre você, textos ou até mesmo as gifs animadas, que agora se restringem ao Tumblr e Buzzfeed. Parece que tudo tem se resumido a Looks do Dia. Inclusive nada contra, até tenho amigas que são, mas sinto que a blogosfera se resumiu a looks e unhas somado a geração whey protein.

Meu brigadeiro de whey protein me deixa assim.

Mas tudo que é bom deve ser cultivado, e o desejo em escrever permanece em mim. Eu preciso sempre de um espaço para escrever o meu muro pessoal das lamentações. Preciso mesmo. Ok, existe o Twitter (140 caracteres pra mim é pouco) e o Facebook (caracteres demais, gente demais), mas este aqui é o único espaço no planeta Terra onde eu posso escrever absolutamente tudo além de deixar o espaço bonitinho com minhas manipulações com o photoshop e não ter aquela tia velha chata fofocando sobre o que você escreveu nos aniversários de criança. Eu sempre sumo daqui periodicamente, talvez por nunca conseguir levar as coisas adiante, ou por falta do que escrever mesmo. Mas sempre volto. E alguns hábitos simplesmente não saem de você, mesmo que você tente.

O RITUAL satânico

Absolutamente tudo que fazemos na vida, sendo seres humanos que somos, envolve algum tipo de ritual. Desde o ritual de acordar - e eu sei que vocês colocam o despertador no modo soneca até enjoarem da musiquinha -, até coisas bem mais complexas e chatas como casar e ter filhos ritual de pesquisar e escolher nomes de crianças que nunca vão nascer. Pertencer à blogosfera não é diferente, e eu particularmente sempre faço o meu velho ritual de (re)iniciação.

Status: acendendo a vela preta.

Preparar o layout: Isso toma tanto tempo da minha vida que é preciso um período de férias pra isso. Primeiro porque eu sou uma tremenda perfeccionista e blogueira das antigas aprendi HTML com os templates do Brumaximus. Segundo que, sem fazer isso, sinto como se o período de hiatus simplesmente não tivesse acabado. Seria como tomar banho e não trocar de calcinha, se é que vocês me entendem.

Visitar outros blogs: Porque uma blogosfera de um blog só é insuportável. Mas além disso, eu sempre dou uma conferida nos blogs que eu costumava ler antes do meu próprio hiatus. Às vezes eu ainda encontro blogs de pessoas que eu conheci em 2007/2008 que estão aí até hoje. E também conheço novos blogs, o que dá uma certa atmosfera que eu gosto muito, de conhecer pessoas através do que elas escrevem em seus espaços <3

Escrever textos compulsivamente: Enquanto eu estou aqui escrevendo, já vou imaginando as mil crônicas que eu nem escrevi ainda mas já gosto pacas. Aliás, isso é o passo mais importante do ritual de iniciação na blogosfera, porque pelo menos pra mim é completamente inútil ter um blog e não escrever nada nele (embora eu não tenha deletado o Burlesque Suicide por motivos de: layout muito lindo).

Põe ~exclusivo~ no rodapé, minha filha, dá trabalho pra fazer esse layout todo.
Após os três passos do meu ritual, aí sim posso dizer que voltei a espalhar para o mundo a minha palavra que não é de deus e chamar os miguxos pra ler e dar avaliações ("olha, Fernanda, acho que você exagerou nesse parágrafo"). E muitas coisas acontecem, mil pessoas passam pela minha vida, mas tá aí uma coisa que veio pra ficar: o blog. Eu voltei de um lugar que nunca saí.