sexta-feira, 24 de julho de 2015

Uma carta de despedida

Uma vez prometi a mim mesma que nunca mais escreveria com raiva. De fato, isso durou muitos anos. Qualquer rascunho sobre minha vida amorosa ou sobre a relação com a minha família era descartado, queimado, mandado pra lixeira ou para a estratosfera. Sobrevivi a essa promessa, e digamos que tenho cumprido com afinco, já que sinto raiva quase cem porcento do meu tempo. Então, quando fico bem puta da vida, saio quebrando as coisas que estão no meu caminho, gritando e explodindo como sempre faço. Não escrevo nada.
Dessa vez o que aconteceu não foi exatamente uma explosão. Foi um desabafo, mesmo que dito em poucas palavras.
Eu gosto de mulheres. Eu nasci assim.
E às vezes, se eu me concentrar, consigo sentir o cheiro da chuva que caía quando tive coragem de dizer isso em voz alta pela primeira vez, na frente de outras pessoas. O dia era cinza e os carros passavam como vultos por nós dois. A água da chuva se misturou com as águas dos meus olhos, que jorravam e caiam majestosa e silenciosamente na pele febril. 
Não é raiva. Dessa vez é tristeza. Daquelas profundas, cujo pensamento me acompanha ao longo de dias, meses e anos. Reside aqui a vontade de pertencer a outro corpo, ser outra pessoa por um dia ou dois. Uma carência de algo que recebi um dia, mas que hoje só restou a lembrança: amor. Não me refiro ao amor romântico dos filmes com o Matthew McConaughey, mas o amor mais puro e simples de uma pessoa para a outra. Pai e filha. Depois dos doze anos, passei a aguardar ansiosamente o dia em que eu seria abraçada de verdade, e nesse dia não haveria nada mais entre nós além de um amor sincero. Então esperei, esperei e esperei. Fitei a janela milhares de vezes esperando você chegar, me pegar no colo e dizer:
- Está tudo bem, criança.
Por vezes, tentei nos aproximar. Aprendi a tocar violão porque você tocava. Ouvi Legião Urbana porque você ouvia. Assisti Matrix e memorizei cada diálogo de cada cena, porque tudo isso fazia sentido para você.
Nada disso aconteceu. Aos quase vinte e um anos, percebi o quanto isso é difícil. Estou fadada a odiar todos os meus aniversários, todos os dias dos pais, todos os feriados. E quando todos estiverem reunidos em volta da mesa, analisando cada pedacinho da ceia natalina, estarei num canto escuro da sala segurando na mão esquerda uma taça de vinho e desejando profundamente mergulhar nela até não restar mais nada. Não terei filhos, pois a ideia de odiar os próprios filhos como você me odeia parece assustar mais do que qualquer fantasma. Todos os dias, depois de uma longa jornada de trabalho, deitarei no travesseiro e pensarei com meus botões: é assim a vida adulta?
Isso não é justo, ou ao menos não parece ser. Você segue os ensinamentos de Jesus Cristo, salvador de todas as almas, e ele diz:
- Amai ao próximo como a ti mesmo.
Tem uma parte sobre honrar o pai e a mãe sim, e talvez seja justamente esse o problema. Honrei meu pai e minha mãe? Para você, não.
Mas fiz tudo que estava ao meu alcance. Achei que seria uma boa fugir ao óbvio da eterna adolescente rebelde e passar a seguir os conselhos dos pais: terminei o ensino médio com distinção, entrei numa faculdade boa, não fui mãe adolescente, não tive namorados problemáticos, não uso drogas ilegais, tenho um plano de vida concreto e sonhos de grandeza. Sou bem heteronormativa: uma garota que faz as unhas, depilação, hidratação no cabelo, usa vestidinhos floridos e maquiagem. Bem feminina. Só não consegui ser a filha perfeita, pois enquanto tudo acontecia dentro da normalidade, por baixo dos panos tive algumas experiências pouco católicas com outras moças da minha idade. Reprimi tudo isso, castiguei meu corpo e minha alma, para fazer a vontade de uma pessoa que deveria me amar incondicionalmente. Agora você me pune moralmente porque quer que eu seja outra pessoa. Você não é cristão e nunca será. No futuro, talvez você olhe a família reunida no fim de ano, e a pergunta silenciosa será: por que ela não está aqui com a gente?
E já respondo de antemão: porque estou triste e sempre ficarei assim quando lembrar de você, de todas as coisas ruins que você me disse. E cada vez que eu tiver chance de fugir de você, farei. Juro que não é raiva. E o mais importante: não se preocupe, o castigo divino já me proporcionou a vida de merda que você provavelmente deseja pra mim. Quando saio pro mundo, quando tenho que encarar outras milhares de pessoas que pensam exatamente como você, levo as chibatadas nas costas. Elas cospem em mim, me xingam, me mandam para o inferno. Porém, elas não são minha família. Não me viram crescer. Não moram comigo, então não fazem diferença alguma. No seu caso, essa foi a maior apunhalada que eu poderia ter recebido em vida. Para você, eu não passo de um câncer, a escória da humanidade. Você viu meus olhos se fecharem para que meu corpo pudesse ser entregue ao Deus da Morte.

Você perdeu sua única filha.

domingo, 12 de julho de 2015

Blogagem Coletiva: Coisas que todo mundo ama e eu odeio

EITA, QUE SUMIÇO FOI ESSE?

Gente.
Que vergonha. Eu praticamente morri pra esse blog.

A verdade é que minhas férias começaram agora e estou aproveitando intensamente como se fosse morrer amanhã. Só na primeira semana já assisti Sense8, Demolidor, comecei Under the Dome, Orange is the New Black e todas as séries que as pessoas me recomendaram com "vai, assiste aí que é legal". Nesse meio tempo também fiquei bastante alta dos álcools da vida (eu fui ao Porão do Alemão. De novo. Com minha mãe.), então cá estou depois de toda a cura da ressaca.

Mas vamos falar da blogagem coletiva do Círculo Secreto e desse tema maravilhoso: coisas que todo mundo ama e eu odeio.

Diria que tenho uma certa qualidade pra odiar coisas. Parece que, quando está todo mundo andando em uma direção, eu abro caminho e saio correndo na outra. Juro que não faço de propósito, pra ser do contra ou a chata do rolê que só reclama. Mas acontece. Sempre acontece. Eu tô sempre odiando tudo. Esse post é quase uma roleta do unfriend, acho que a visão que vocês poderiam ter de mim como uma pessoa legal e descolada vai... Hum, digamos, SUMIR.


1. Scarpin (que a Larissa me corrigiu e disse que o nome é Meia Pata, mas que a vida inteira chamei de Scarpin pois sou uma alienígena)

Como que anda com isso? Tem tutorial no YouTube?
Na verdade, acho esse tipo de sapato a coisa mais linda! Só que no pé dos outros. A vida inteira evitei saltos que não fossem anabela, porque salto anabela é vida, é comprometimento com a beleza e a segurança. É ir pra balada e não ficar com os pés cansados. É poder chegar bêbada em casa e não correr o risco de tropeçar.
Esses dias comprei minha primeira sandália com salto agulha, pois enfiei na minha cabeça que, até a formatura da faculdade acontecer, eu PRECISO aprender a andar com isso sem parecer um pato. Depois conto pra vocês como está sendo minha experiência, mas no geral: É UMA MERDA.


2. Comprar roupas

Esse filme não faz sentido nenhum pra mim.
É UM SACO ficar experimentando roupas. Fico indecisa, levo umas 10 blusas completamente iguais pra experimentar nos provadores, me atrapalho toda, fico puta da vida se tiver que experimentar calça jeans e precisar tirar a roupa, começo a suar, hiperventilar, me olhar no espelho do provador e ter um ataque porque meu cabelo está fora do lugar. Vou pagar e sinto que levei mil tiros porque uma simples regata custa VINTE REAIS, e aí eu pergunto a mim mesma se preciso mesmo dessa regata, mas no fim eu levo pois afinal é uma regata, e quem não precisa de regatas?
Mas isso é em loja física, E COMPRAR PELA INTERNET???????? Sempre fico achando que tô tirando minhas medidas de forma errada, que vai vir num tamanho muito pequeno ou muito grande, que vai vir com defeito e eu vou ter que trocar, vai dar problema na hora de trocar, vou ter que ir ao PROCON porque o produto não chega, faz B.O na delegacia, escreve textão no Facebook falando mal da loja...


3. Tecnologias modernas

Esse filme me dá agonia.
Poucas coisas me irritam com tanta facilidade como a tecnologia atual de touch screen, programação em nuvem, layout responsivo, HTML5 e tantas outras modernidades que não existiam em 1994.
Nem sou velha, sabe? Tenho 20 anos. Mas me atrapalho toda na hora de mandar mensagem pelo celular, PORQUE NÃO FAZEM MAIS CELULARES COM BOTÕES FÍSICOS, fico com vontade de jogá-lo na parede toda vez que trava. E quando você tá precisando muito ligar pra sua mãe, seu celular simplesmente apaga e não liga nunca mais, tem que ficar andando com carregador na bolsa ou mendigar carregador pros seus colegas de turma que, visivelmente, te odeiam. Agora inventaram um notebook com tela touch screen, porque tem que cagar MAIS a minha vida, né? Mesma coisa a SmartTV, que parece ser uma boa, mas quando você vai usar descobre que trava tanto quanto seu PC com 500mb de memória RAM.

E aí eu me pergunto: como vai ser quando eu tiver, sei lá, 50 anos?
EU VOU PIRAR.
Como já diria Bourdieu, aquele sociólogo francês, todo jovem é o velho de alguém.


4. O tão famigerado NUDE

Esses pedidos são difíceis demais.
Parecia ser uma ideia legal no começo. Você tá de boas na sua cama, de repente seu celular vibra (MAS EU AINDA TE ODEIO), você abre o Whatsapp, recebe foto daquele peitinho maroto, dá aquela xavecada básica e marca uns lances aí pra semana que vem.
Depois você percebe que tá tudo errado. A pessoa começa a te mandar nude no meio do almoço de família, seu irmão mexe no seu celular, pergunta por que tem tantos peitos na sua galeria de fotos, surge uma cobrança para que você mande seus nudes também, mas você não quer mandar nudes e sim ter um romance puro e sincero, sem peitinhos, e nesse meio tempo seu pai descobre que tem uns nudes rolando pelo seu celular e chama a família toda para ter uma conversinha sobre pedófilos da internet, MAS PERA, você tem 20 anos e sua crush tem 18, e ainda por cima vocês se conhecem pessoalmente!
Não que isso tenha acontecido comigo, mas né...
VAI
QUE
ACONTECE


5. Filmes de Terror

Pra que tanto ódio nesses dentes?
Apesar de curtir bastante Sobrenatural e derivados, queria TANTO só ver Ursinhos Carinhosos e outras coisinhas fofas <3 Sou bem medrosa. Só assisto filmes de terror se tiver alguém consideravelmente mais forte que eu pra essas coisas. Meu irmão tem 16 anos e viu REC sozinho, aos 14, já eu tive que pedir ajuda aos universitários (que no caso era ele mesmo).


6. Sonho de valsa

Brother... Na boa...
Uma vez eu participei de um amigo doce. Fui bem clara quanto às minhas preferências: chocolate branco ou talento com castanha-do-pará. FUI BEM CLARA, SABE?
E aí a pessoa chegou no dia e disse que não sabia exatamente do que eu gostava, então comprou Sonho de Valsa porque é um gosto universal. VÁ PARA A PUTA QUE PARIU.


7. Inverno

Olha isso, cara, OLHA ISSO.
Gosto de climas que não são nem muito quentes, como o clima tenso daqui de Manaus, nem muito frios, como eram os invernos de Foz do Iguaçu.
A parte de usar bastante roupa, pra mim, é um problema: eu colocava dois pijamas, uma calça que não combinava com o casaco, um cachecol que não combinava nem com a calça e nem com o casaco, um gorro que deixava meu cabelo acabado, luvas horríveis azul-bebê e um sapato nada a ver com todo o resto. Isso de se vestir bem é lenda quando você precisa realmente se aquecer. Eu não estava nem aí se meu visual não tinha um pingo de glamour, só queria mesmo desviar do vento gelado que vinha me cortando ao meio toda vez que eu precisava ir pra escola às 6h da manhã. Dava pra sentir meus pés quebrando o gelo que se formava na grama, enquanto caminhava. ISSO-ME-DAVA-AGONIA.
E pra dormir? Três edredons, duas meias, duas calças, três camisas com manga, e eu ainda passava a madrugada toda me tremendo!
Já na primavera era lacração total, aposentadoria das roupas feias do inverno, flores crescendo, pássaros cantando e a vida voltando a fluir normalmente.

Odeio frio. Com. Todas. As. Minhas. Forças.


8. The Big Bang Theory

Zzzzzzz
Desculpa pelo vacilo, sociedade. Mas que série chata!


9. Dormir

Mas olhando por esse ângulo, nunca foi tão lindo dormir.
Uma coisa que faço pura e simplesmente por ser extremamente necessário. Sempre acho que estou perdendo algum tempo precioso que poderia ser usado pra estudar, ver séries e filmes, transar, fazer caminhada, comer, resolver o problema da paz mundial, consertar o cano da pia do banheiro que tá com água vazando, escrever, dançar ou até mesmo entrar em crise existencial. O ruim é que tenho estado tão cansada que não tenho escolha: durmo e durmo muito, porém com muito peso na consciência.


10. Loser Manos


Pois. É.
The treta has been planted.
Eu sei, eu sei. Milhões de fãs. Muito além de Anna Julia. Reinventaram a música popular brasileira etc etc. Mas sinceramente? Acho um porre essa geração "good vibes/bater palma pro sol, gentileza gera gentileza, sandália papete feat saia longa com estampas psicodélicas, fumar o cigarrinho até a ponta, só ouço música nacional, saudosista porém não curto Caetano pois muito metido e superestimado, tatuagem de apanhador de sonhos na costela, brinco de pena, grupo de estudos de textos do Foucault" (nada contra Foucault, inclusive amo Vigiar e Punir). Tem uma crônica, que circula pela internet desde que Jesus ainda era vivo, cujo título autoexplicativo é: Como me fudi no show do Loser Manos. Sintetiza bem o que espero dessa geração.
E as músicas...
Bem, as músicas...
Dão muito sono. Já falei pra vocês que odeio dormir?

 photo 2-2_zpslhzwjgiq.png

Esse post faz parte da blogagem coletiva do Círculo Secreto das Bruxas Blogueiras, um coven secretíssimo que reúne só as mais poderosas bruxas da antiga blogosfera. Fique de olho nos blogs participantes. Corvos estão voando e cartas estão sendo entregues.